domingo, setembro 09, 2007

Três

Três coisas diferentes, vomitadas, cada uma a seu turno:




Sufoco da vida escolhida
Se é que escolhida
Viver é minha pergunta diária
Incapacidade para ser feliz é de muitos: eu?
Devia estar lá
Não aqui
Em casa, enfrentando as baratas
E não aqui enfrentando mundo.

Cada coisinha que ouço
Dói de doçura
ou de vinagre

A alça da bolsa enlaça minha cintura
Seu braço fino abraça minha curva interrogativa
Único
Mudo de posição, simetricamente,
meu bálsamo
Preciso ser abraçada dos dois lados
pelo menos – não há meio

Perfazendo aquele caminho antigo
vento amigo cabelo sedoso rebelde feliz
vontade vomitar: ainda não!
Com olhos, sempre.
Pode vomitar a minha existência para o espaço sideral?

Eu não sinto inveja de quem dá mãos
Eu não tenho coco para quem quer
Sou coqueiro. No frio.
Eu tenho pena de mim.
Posso ser caducifólia, retendo lágrima –
água minha e sal –
Em pleno calor de momentos.

Entenda, não aceite, entenda
única atitude minha
bem-vinda-que-não-vem

Eu não queria (mesmo quando pretendia viver)
ser essa pele lacerada, carne-viva
nem essa idiotice purulenta.

Queria narração
ou poesia em pé de mangueira
ou de amor so lá si amor

Cada dia faz seu convite
O dia de ontem convidava ao suicídio
No entanto, estou aqui.

E os rapazes de uniforme passam displicentes
E levam
A impressão que meu óculos causa:
grande que é

Alguém aceita selar esse segredo
que confesso gritando?

Falo como especial
uma besta. Que ladra!
e corre da vida
E corre do suicídio

O sol machuca o olho

Aquele hálito gasto
seco, cínico, ácido, castanho
que era obrigada a sentir
Era apenas um hálito gasto
que me irritava naquele homem
do ônibus.

Cheiro da calça jeans usada de você
parece que você quase sentou, emborcado,
na minha imaginação.

É um tudo nem

Sua cabeça solar está em todo lugar
que me tampa as vistas
e machuca-me o olho.



______________



É tão fácil abrir os dedos e deixar as coisas irem. Eu mesma. Eu folguei os dedos, porque as cutículas minhas, exaustas, tinham cansaço em peso. Eram dormentes. Já desenganadas. Agora soltas, libertas, elas guardavam resquícios e rachaduras. Tiro-as fora, por ser mais fácil não sentir o cansaço delas pelo corpo todo, já que sou unidade. Mas sem elas, não é possível nada – só uma doce e inútil inércia. Não seguro nada mais. Nem as unhas, que escorregam molemente, expulsas do corpo. Sem cutículas e unhas, como arranhar as doenças? Como perfurar as dores? Espremer os dissabores? Só se pode viver convivendo com alguma dor, isso é certo. Tiro as cutículas, porque cansei de cansar. Gosto de doer e latejar.
____________
Tenho que pensar mais no meu vazio. Pensar, pensar, pensar até parar de fazer sentido aquilo já era tão sem sentido mesmo. Pensar até sentir nos longes dos olhos uma vontade de chorar. Até saber que sinto algo. Que sinto que estou aqui, dentro de mim. Mas, se eu não achar, realmente tanto faz. Para que achar? Achar é depois de perder-se. Perder e achar: para isso deve-se existir de verdade. Quando não se existe, não há como se perder ou se encontrar. Se me fosse dada a escolha, eu desistiria, sem pensar – porque há muito meu espírito já pensou.

5 comentários:

ulisses disse...

em algum momento do teu texto senti meu pulso aberto...e agora é assim que vou dormir....abraços poéticos

Ch disse...

Aprecio bastante esses escritos assim, vomitados, independentes entre si, mas harmônicos, como devem ser os poderes.
Porque dependem de um só fluxo de pensamento, ainda que intermitente.
Trata-se, claro, de uma característica sua.
Poemática errante, de urgência, em primeiro lugar. Lembra um perambular cotidiano de ações que se repetem, e dentro delas, sonhos e imagens tomam forma.
E com que riqueza...!

Ch disse...

Acredito, contudo, que você se sai melhor quando não tem regras a seguir, quando o que dita seu pensamento se transforma em crônica, algo de cotidiano, também, mas muito de filosofia pessoal, interna, subliminar.
E a gente lê com satisfação o que seu olhar sobre o mundo produz.

Ch disse...

O terceiro texto, por fim, equilibra-se numa ponta de devaneio.
Sim, a racionalidade dá uma treguinha de nada ;]
É como se você explorasse aquele vazio entre um pensamento e outro, e nele se aprofundasse, como a justificar um novo estilo, uma nova ordem.
Pensar para esvair-se?
Abraço a vc, diachinho.
Carlos

Marthina disse...

sim, eu gostei do texto.Tão subjetivo.Faz-me lembrar de mim em alguns dos meus momentos.
Camila, quando me sinto assim, eu aprendi a dizer a mim mesma: Tudo vai acabar bem.E, o pior, aliás, o melhor, é que sempre acaba.

P.S.: Olhar é melhor que pensar, disse uma vez Goethe.
:D

beijos!